Por que sentimos tontura ao girar?
A tontura é uma sensação comum, descrita como desequilíbrio, instabilidade ou
como se o mundo estivesse girando ao redor da pessoa. Ela pode ter várias
causas, mas uma das mais conhecidas acontece quando giramos o corpo rapidamente
— como em uma brincadeira de parque, uma dança ou um esporte.
Quando realizamos um movimento de rotação, o corpo passa por um fenômeno
fisiológico: dentro do ouvido interno existe um sistema chamado aparelho
vestibular, formado por canais semicirculares cheios de líquido (endolinfa).
Esse líquido se movimenta conforme a rotação da cabeça e envia informações ao
cérebro sobre o movimento. O problema é que, quando paramos de girar, o líquido
continua em movimento por inércia, como se ainda estivéssemos rodando. Essa
informação “atrasada” entra em conflito com o que os olhos veem (que já estão
parados), gerando a sensação de vertigem ou tontura.
Um dos sinais mais visíveis desse processo é o nistagmo pós-rotatório: um movimento involuntário dos olhos que ocorre logo após a rotação. Nesse momento, os olhos se movem de um lado para o outro, tentando se ajustar ao falso sinal de movimento vindo do ouvido interno. Esse nistagmo é, portanto, uma resposta normal do corpo, mas é ele quem contribui para a sensação desconfortável de que o mundo ainda está girando.
Para entender melhor essa resposta, cientistas usam uma medida chamada constante de tempo (Tc). A Tc representa o tempo necessário para que a velocidade da fase lenta do nistagmo diminua em cerca de 67% do valor inicial. Em outras palavras, mostra quanto tempo o sistema leva para "se acalmar" depois que a rotação termina. Quanto mais curta for a Tc, mais rápido o corpo consegue reduzir o nistagmo e, consequentemente, a tontura.
Pesquisas recentes mostraram diferentes estratégias que ajudam a reduzir a vertigem. O estudo de Kim et al. (2013) observou que a fixação visual após a rotação (olhar para um ponto fixo quando o movimento termina) ajuda a inibir o nistagmo e diminuir a tontura. Já tentar focar durante a rotação não traz o mesmo efeito, porque o nistagmo pós-rotatório é consequência do movimento do líquido no ouvido após o giro.
De forma complementar, o estudo de Scarli et al. (2020) investigou a técnica de
spotting, bastante usada por bailarinos, que consiste em fixar os olhos em um
ponto de referência a cada volta. O curioso é que o spotting não mostrou efeito
consistente durante giros ativos (quando a pessoa gira o próprio corpo). Porém,
nos giros passivos, feitos em uma cadeira rotatória — onde o participante é
girado sem controlar o movimento — o spotting trouxe benefícios claros: menor
sensação de tontura e melhora da estabilidade postural após a rotação. Isso
indica que a eficácia do spotting depende do tipo de giro, funcionando melhor quando
a pessoa não tem o controle ativo do movimento.
👉 Em resumo: a tontura após um giro acontece porque o ouvido interno
continua “informando movimento” mesmo quando o corpo já parou. O nistagmo
pós-rotatório é o reflexo visível desse processo, e a constante de tempo (Tc) é
a medida usada para avaliar o tempo de recuperação. Estratégias visuais como a
fixação pós-rotatória (Kim et al., 2013) e o spotting em giros passivos (Scarli et al., 2020) são recursos que ajudam
a reduzir a tontura e a melhorar a estabilidade.
Referências
KIM, Min-Beom et al. Post-rotatory visual
fixation and angular velocity storage habituation are useful to improve
post-rotatory vertigo. Acta Oto-Laryngologica, v. 133, n. 11, p. 1154–1160,
2013.
SCARLI, Andrea; STRAPPAZZON, Giovanni;
MANZONI, Dino G. How does the spotting technique affect dizziness and postural
stability after whole-body rotations in dancers? Frontiers in Psychology, v.
11, 2020.
✍️ Rodrigo Delano Branco de Carvalho – Fisioterapeuta (CREFITO 4). Diretor da
Universidade de Dança de Salão, referência nacional e internacional em Zouk
Brasileiro e Lambada.
Mestrando em Ciências Fonoaudiológicas – Faculdade de Medicina/UFMG,
pesquisando estratégias de equilíbrio humano. Integrante do GEDAM (Grupo de
Estudos de Aprendizagem Motora) e do LAM (Laboratório de Análise do Movimento)
da UFMG.


2 comentários:
Muito bom, meu amigo. Parabéns pelo estudo.
Parabéns, muito importante.
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