sábado, 4 de outubro de 2025

 








Por que sentimos tontura ao girar?


A tontura é uma sensação comum, descrita como desequilíbrio, instabilidade ou como se o mundo estivesse girando ao redor da pessoa. Ela pode ter várias causas, mas uma das mais conhecidas acontece quando giramos o corpo rapidamente — como em uma brincadeira de parque, uma dança ou um esporte.

Quando realizamos um movimento de rotação, o corpo passa por um fenômeno fisiológico: dentro do ouvido interno existe um sistema chamado aparelho vestibular, formado por canais semicirculares cheios de líquido (endolinfa). Esse líquido se movimenta conforme a rotação da cabeça e envia informações ao cérebro sobre o movimento. O problema é que, quando paramos de girar, o líquido continua em movimento por inércia, como se ainda estivéssemos rodando. Essa informação “atrasada” entra em conflito com o que os olhos veem (que já estão parados), gerando a sensação de vertigem ou tontura.




Um dos sinais mais visíveis desse processo é o nistagmo pós-rotatório: um movimento involuntário dos olhos que ocorre logo após a rotação. Nesse momento, os olhos se movem de um lado para o outro, tentando se ajustar ao falso sinal de movimento vindo do ouvido interno. Esse nistagmo é, portanto, uma resposta normal do corpo, mas é ele quem contribui para a sensação desconfortável de que o mundo ainda está girando.

Para entender melhor essa resposta, cientistas usam uma medida chamada constante de tempo (Tc). A Tc representa o tempo necessário para que a velocidade da fase lenta do nistagmo diminua em cerca de 67% do valor inicial. Em outras palavras, mostra quanto tempo o sistema leva para "se acalmar" depois que a rotação termina. Quanto mais curta for a Tc, mais rápido o corpo consegue reduzir o nistagmo e, consequentemente, a tontura.

Pesquisas recentes mostraram diferentes estratégias que ajudam a reduzir a vertigem. O estudo de Kim et al. (2013) observou que a fixação visual após a rotação (olhar para um ponto fixo quando o movimento termina) ajuda a inibir o nistagmo e diminuir a tontura. Já tentar focar durante a rotação não traz o mesmo efeito, porque o nistagmo pós-rotatório é consequência do movimento do líquido no ouvido após o giro.






De forma complementar, o estudo de Scarli et al. (2020) investigou a técnica de spotting, bastante usada por bailarinos, que consiste em fixar os olhos em um ponto de referência a cada volta. O curioso é que o spotting não mostrou efeito consistente durante giros ativos (quando a pessoa gira o próprio corpo). Porém, nos giros passivos, feitos em uma cadeira rotatória — onde o participante é girado sem controlar o movimento — o spotting trouxe benefícios claros: menor sensação de tontura e melhora da estabilidade postural após a rotação. Isso indica que a eficácia do spotting depende do tipo de giro, funcionando melhor quando a pessoa não tem o controle ativo do movimento.

👉 Em resumo: a tontura após um giro acontece porque o ouvido interno continua “informando movimento” mesmo quando o corpo já parou. O nistagmo pós-rotatório é o reflexo visível desse processo, e a constante de tempo (Tc) é a medida usada para avaliar o tempo de recuperação. Estratégias visuais como a fixação pós-rotatória (Kim et al., 2013) e o spotting em giros passivos  (Scarli et al., 2020) são recursos que ajudam a reduzir a tontura e a melhorar a estabilidade.

Referências

KIM, Min-Beom et al. Post-rotatory visual fixation and angular velocity storage habituation are useful to improve post-rotatory vertigo. Acta Oto-Laryngologica, v. 133, n. 11, p. 1154–1160, 2013.

SCARLI, Andrea; STRAPPAZZON, Giovanni; MANZONI, Dino G. How does the spotting technique affect dizziness and postural stability after whole-body rotations in dancers? Frontiers in Psychology, v. 11, 2020.


✍️ Rodrigo Delano Branco de Carvalho – Fisioterapeuta (CREFITO 4). Diretor da Universidade de Dança de Salão, referência nacional e internacional em Zouk Brasileiro e Lambada.
Mestrando em Ciências Fonoaudiológicas – Faculdade de Medicina/UFMG, pesquisando estratégias de equilíbrio humano. Integrante do GEDAM (Grupo de Estudos de Aprendizagem Motora) e do LAM (Laboratório de Análise do Movimento) da UFMG.

2 comentários:

Rúdi Bortolotto disse...

Muito bom, meu amigo. Parabéns pelo estudo.

Onde aprender tango? disse...

Parabéns, muito importante.